quinta-feira, 31 de julho de 2008

Pedro e luiz



Não conversavam. Eram palavras vãs que saíam de seus dedos num teclar esporádico e monótono, eram dizeres sem sentido, no mais um grande silêncio, um grande vazio. Os pensamentos batiam com a cara numa porta seminova e um desconfiava que aquele mar onde talvez viesse a querer mergulhar de cabeça era raso demais. Outro não enxergava nada por aquela tela velha do computador. Era tudo só uma neblina.

Pedro tinha muita boa vontade, e alguma esperança. Tolerava, tolerava, tolerava... agüentava o máximo que desse à espera de uma brecha, de um ponto em comum. Mas não disfarçava para si certa frustração quando suas palavras não encontravam eco ou quando não vislumbrava qualquer razão que o instigasse. Uma opinião, um sentimento. luiz tinha medo de suas próprias opiniões e sentimentos, sentia vergonha de expô-los, achava que Pedro não os compreenderia ou riria deles, ainda que só para si. Percebia que Pedro era tudo: bonito, inteligente, sensível, poeta até. Um grande pensador. Por mais que ele dissesse o contrário, luiz sabia que jamais o dominaria, que Pedro jamais se ajoelharia de verdade diante dele pra chupá-lo como ele tanto desejava. Nem mesmo sabia porque aquela conversa já tinha se esticado tanto.

No sexo é que se encontravam. Quando liam as palavras de um e de outro, suas vontades, suas taras, sua falta de limite. luiz queria mijar naquela carne branquinha, socar fundo até o talo e cuspir naquela beleza toda. Pedro se excitava com a brutalidade do outro, a desejava, aquela força burra, sensual e burlesca o fascinava, o fazia contrair repetidamente a flor da bunda e acariciava cada vez mais pesado o pau sob a cueca. Pedro o chamaria de Senhor sem pensar durante o efervescer das veias, sussurraria que é de luiz a sua vida, o seu destino, o seu reles corpo. luiz teria uma nova e reluzente peça na sua coleção.

O problema seria depois. Ambos sabiam que depois do orgasmo sempre haveria a fatalidade da sensatez, a vergonha de um, a subestimação de outro. Luz sobre o pó. Nesse desestímulo de prever os seus depois que luiz, poeira agitada, perguntou se Pedro não se incomodaria de se submeter a alguém “intelectualmente inferior”. Silêncio. “— Por que?”. luiz riu. Silêncio. Um brilho da tela perfurava seu coração: Pedro se encantava. Não era mais com um possível Mestre que conversava, era com um homem, quem sabe um menino. Esqueceu-se um pouco do tédio e do sexo e não decidiu se se esqueceu ou se lembrou de si. “— Claro que não”. E por enxergar algum clarão por aquela porta, Pedro encorajou a troca dos telefones, depois, simpático, se despediu: — Nos falamos, nos vemos em breve, grande abraço, Luiz.

(h.l.)

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Sem açúcar



Todo dia ele faz diferente
Não sei se ele volta da rua
Não sei se me traz um presente
Não sei se ele fica na sua

Talvez ele chegue sentido
Quem sabe me cobre de beijos
Ou nem me desmancha o vestido
Ou nem me adivinha os desejos

Dia ímpar tem chocolate
Dia par eu vivo de brisa
Dia útil ele me bate
Dia santo ele me alisa

Longe dele eu tremo de amor
Na presença dele me calo
Eu de dia sou sua flor
Eu de noite sou seu cavalo

A cerveja dele é sagrada
A vontade dele é a mais justa
A minha paixão é piada
Sua risada me assusta

Sua boca é um cadeado
E meu corpo é uma fogueira
Enquanto ele dorme pesado
Eu rolo sozinha na esteira

(Chico Buarque)