quarta-feira, 21 de maio de 2008

A taça

"Talvez ele quisesse que eu bebesse a sua vida, talvez para absorver um pouco suas dores, sua insignificância, compartilhar sua existência e, assim, descobrir-se compreendido. Talvez ele só quisesse me humilhar, forçar-me a engolir suas nojeiras semimortas, fazer-me submeter ao seu domínio, aniquilar a cada gole o meu brio de homem e provar a si mesmo sua virilidade grotesca e infinita..."

[Faz um tempo, me convidaram para participar de um blog enviando contos. Como sou preguiçoso, falei logo que textos inéditos poderiam demorar a aparecer, afinal também tinha este espaço para cuidar. Por conta disso, deixei que textos daqui fossem copiados lá, mas como o mocinho dono do blog é simpático e bonito, e eu não resisto a mocinhos simpáticos e bonitos, ainda mais os que gostam de amarrar, prometi a ele um conto exclusivo ao site. E é esse do trecho aí em cima. Peço a gentileza então que, quem quiser, visite o site e leia o restante do texto. Não custa nada, é rapidinho:


abraços.
h.l.]

quinta-feira, 8 de maio de 2008

de Augustine De Villeblanche


"– A maior de todas as loucuras – dizia ela – é enrubescer por causa de nossas inclinações naturais; e zombar de qualquer indivíduo que possua gostos singulares é absolutamente tão desumano quanto escarnecer de um homem ou de uma mulher saída zarolha ou coxa do seio de sua mãe; mas convencer os tolos sobre esses princípios racionais é tentar impedir o movimento dos astros. Para o orgulho, há uma espécie de prazer em zombar dos defeitos que se não tem, e essa satisfação é tão doce ao homem e particularmente aos néscios, que é muito raro vê-los renunciar a tal comportamento, este, por sinal, fomenta a malvadez, as frívolas palavras de espírito, os calembures vulgares, e, para a sociedade, isto é, para um grupo de seres que o tédio reúne e a estupidez modifica, é tão doce falar duas ou três horas sem nada a dizer! Tão delicioso brilhar às custas dos outros, e proclamar, estigmatizando um vício, que se está bem longe de o possuir... é uma espécie de elogio que se faz tacitamente a si mesmo; por esse preço é lícito inclusive associar-se aos outros, tracejar maquinações secretas a fim de pisar no indivíduo cujo grande erro é não pensar como a maioria dos mortais; e a pessoa volta para casa toda entufada devido à espirituosidade que não lhe faltou, embora com tal conduta só se tenha demonstrado, essencialmente, pedantismo e estupidez".


(Trecho de Augustine de Villeblanche ou O Estratagema do Amor, de Marquês de Sade. Tradução de Plínio A. Coelho e Alípio C. F. Neto)