Foi no abismo do ciúme que se viram, se tocaram, se odiaram, a si e ao outro, foi dentro da ferida, da agonia do ciúme que se perceberam, a si e ao outro, e saíram pra tomar um café. Eram irmãos, sem querer, sem permitir, não tinham escolha, ou ao menos não queriam fazê-la. Mas estavam ligados, na dor, no prazer, no amor, no ódio, no medo, por algemas, cordas, mordaças, chicotes, por uma coleira. Tomavam aquele café prestando atenção no preto e no amargo. Pensavam juntos, em silêncio, por que admitiam dividir o mesmo homem, por que admitiam permitir que um único homem os usasse impunemente, por que consentiam sofrer o azedo do ciúme enquanto esse mesmo homem tinha seu ego massageado? O que era esse homem? O que era o toque dele no outro, na sua frente? A eles não eram permitidos outros toques, às vezes nem o próprio, outros corpos, a eles só era permitido que agüentassem a realidade de que um homem superior tinha o direito de usufruir de quem e quantos desejasse. O ciúme era um doce beijo, precedente ao duro toque de um Dono, de um Mestre que existia para que se conhecessem, para que mergulhassem em todas as agruras que agora chamavam de prazer. Mas qual era mesmo o prazer? Um rompeu o silêncio: qual seu nome, onde mora, idade, perguntas tolas, respostas já conhecidas, mas alguém precisava falar. Ouve que música? Sempre a música dá um toque especial à conversa, falaram dos ingleses, dos americanos, dos franceses, dos alemães, mas divergiram mesmo foi sobre os brasileiros, sobre uma falta de criatividade pós-moderna, sobre os magníficos anos setenta, sobre Chico, Caetano, Ney, sobre o funk, punk dos pardos, sobre o sempre frágil rock nacional. Falaram de novelas, séries, filmes, reality shows, encontraram a literatura, Clarice, Caio, Pessoa, Helder, Torga, Sade, fizeram analogias e chegaram enfim às suas vidas. O papo já tinha cor. Um já era agradável ao outro. Riram, sorriram, se olharam, balbuciaram segredos, murmuraram fragilidades, dorezinhas, safadezazinhas, lacrimejaram a infância, blasfemaram. Eram irmãos, sim. Era claro. Porque nossos irmãos estão perdidos pelo mundo, porque escolhemos a nossa família, aquela verdadeira, o nosso laço, porque somos eternamente responsáveis por aqueles e por aquilo que cativamos, e pequenos príncipes ou não, um era cativo do outro, amigo do outro, porque se viram no mesmo caminho, com as mesmas ansiedades, eram almas gêmeas, necessitadas das mesmas vivências, com a mesma sede, com a mesma fome, eram duas crianças cheias de medo, precisando enfrentar os mesmos fantasmas. Perceberam-se partilhando da mesma solidão, caindo de um mesmo precipício, se viram escombros de uma mesma desgraça. O ciúme perdia o sentido, porque eram irmãos, cúmplices, entenderam perfeitamente que a dor de um era a dor do outro, tiveram compaixão, se abraçaram, disseram não se preocupe, eu sou teu amigo, nunca vou te abandonar. Sabiam-se donos de si, independentes, responsáveis pela mesma experiência que escolheram para sanar seus males, nem superiores nem inferiores, companheiros de estrada. O Mestre, isto lhes era só um detalhe.
(h.l.)
