domingo, 20 de janeiro de 2008

A alma de um homem


Mandei que não fizesse enema, ou mesmo que evacuasse. Queria-o despreparado, como ele é nas mais corriqueiras situações. Sem banhos também. Queria os cheiros e as sujeiras, toda a miséria que pudesse expor. Que chegasse como quem chega de um exaustivo dia de trabalho, de uma longa jornada que o sufocasse, de uma vida torturante. Eu queria um homem cansado, com o corpo a implorar por alguns minutos de sono, de pausa, eu queria um homem entregue às suas necessidades mais primitivas.

Foi a bunda desse homem que eu abri. Observei o seu cu atentamente, cada detalhe de seu formato, cada prega, cada pêlo. Era meu o seu fim como macho. Eis o meu conselho: lamba o cu de um homem e capture sua essência, mordisque, molhe, rompa o seu segredo, cheire seu brio, desperte seu cio, coma-o inteiro: no cu está a alma de um homem.

Fodi aquela bunda com cuidado, procurando tudo o que aquele corpo pudesse me esconder. Minha pele enfiada na sua pele, em busca do avesso da sua beleza. O incômodo do homem me era reconfortante, sua preocupação estampada em suas expressões dissimuladas, seu pau mole, mostrava-me que o seu desconforto era além da dor que minha pica lhe causava. Eu cutucava o intestino com força, demorado, e percebia que o lixo daquele belo rapaz era iminente. Pedi para que não se preocupasse, deixasse seu corpo render-se.

O cheiro contaminava tudo. Foi insuportável. Aquele homem peidava, esvaía-se, o horror, um nojo. A minha repulsa era incontrolável, e aquele corpo se contorcia constrangido. A merda, a sua vergonha, a coisa mais última que se conquista de uma pessoa, eu o olhei, aquela criatura vulnerável à minha aversão, e à sua própria, e pensei no que enfim eu conseguira: eu o tinha por completo.

(h.l.)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Diário de Pavese




"Você será amado no dia em que puder mostrar sua fraqueza, sem que o outro se sirva dela para afirmar sua força".

(Cesare Pavese)