domingo, 25 de novembro de 2007

Sobre uma comunidade


Havia todo aquele discurso, todas aquelas teorias, muitas conflituosas, havia toda aquela gente. Era uma sala escura, a luz era fraca, vinha apenas de cigarros acesos. A gente usava máscaras. Todos falavam ao mesmo tempo, havia quem gritasse, esperneasse, desse ordens ou apenas choramingasse. O barulho parecia com o de um grupo de crianças assustadas, querendo crescer, sem conseguir. A sala era pequena, pouca muita gente esprimida, todos homens, todos se tocando por falta de espaço. Buscavam não enxergar alguma luz, mas fazer uma. Algumas das crianças teimavam ser “mais grandes”, ter mais histórias pra contar. Tadinhas, embaralhavam-se todas, embora despertassem a admiração de outras, ignorantes e insensíveis. Tornavam-se assim ídolos dos tolos. Quem olhasse de fora, poderia crer que havia Mestres e discípulos, que uns brilhavam mais que outros. Muitos não se importavam, continuavam de fora, mas divulgavam a fama dos famosos, o brilho dos brilhantes, construíam nomes, alicerces. Formava-se algo, grandioso como pede toda propaganda. Muitos não se importavam, achavam divertido, e apenas divertido, aquele barulho, aquelas máscaras todas, então entravam, davam uma voltinha e iam embora, satisfeitos com o pouco que tinham, com o pouco que eram. Felizes, esses. Outros, porém, não entravam, mergulhavam na salinha e tocavam as crianças, birrentas, sempre. Esses saíam confusos, surpresos, talvez decepcionados, tanto porque a salinha era pequena demais, suja demais, escura demais, quanto porque os gritinhos que todos soltavam, aquelas palavras não faziam sentido, ora porque eram apenas palavras, assim sem força e sem razão, ora porque vinham da boca de gente que, quando tocadas, se mostravam tão frágeis quantos seus discípulos ignorantes e insensíveis. Esses outros tinham até raiva, pois a propaganda daqueles que não se importavam firmavam bases falsas, alicerces de papel, os grandes nomes, os sábios, os exemplos, os sempre citados, mencionados aqui e ali, todos poeira de uma sala fétida, todos fumaça efêmera de um cigarro quase apagado. Aqueles que buscassem um apoio fatalmente cairiam. Tragédia, tragédia, tragédia! Tristeza.

(h.l.)

domingo, 18 de novembro de 2007

Tatuagem


Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem...

E também pra me perpetuar
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava...

Quero brincar no teu corpo
Feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem...

E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, murcha
Farta, morta de cansaço...

Quero pesar feito cruz
Nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem...

Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
e ferro e fogo
Em carne viva...

Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam
O corpo todo
Mas não sentes...

(Chico Buarque)

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Carta de um jovem monstro


Senhor ***,

Recebi com alegria sua última mensagem, tem sido muito prazeroso conversar com o Senhor e ler seus conselhos, suas reflexões, e perceber o quanto se importa comigo, independente de termos ou não qualquer relação que ultrapasse uma amizade. Suas palavras me despertaram questionamentos que ainda não tinha, embora os que tenho já me atormentem demais a cabeça.

Realmente me pergunto sobre minha vocação para o BDSM. Infelizmente minhas experiências não condizem com os meus desejos, não me preenchem por completo. Não sei se busco a coisa errada no lugar errado ou se há algo imaturo demais ainda dentro de cada um nesse meio. Como sabe, tenho tendência a acreditar que o erro esteja comigo.

O Senhor tem razão ao me fazer indagar se sou mesmo submisso e me fez sorrir ao dizer que ajudaria a me tornar um Dominador, e que assim criaria um “monstro”, tal a presença do espírito forte dos Mestres em mim – mas não sem antes tê-lo servido, é claro. Confesso que reconheço esse lado forte, sim, mas me pergunto quem nesse meio ou em outros, que ser vivo possuiria apenas um lado? Não me atrevo a fazer qualquer apologia à “versatilidade”, mesmo que os switchers sejam uma constante, o que digo é que a humanidade consiste justamente naquilo que oscila dentro de cada um, na não-certeza, no não-ideal. Sou mais humano que submisso, Senhor, sou cada hesitação, cada incerteza que me aflige e cada contradição dos meus atos e de minha condição, e acredito que todo Dominador seja igualmente humano.

Aliás, pesquisando um pouco mais sobre os símbolos do BDSM, li que um dos objetivos do Triskelion, o amuleto com as três linhas curvas que lembram propositadamente as do símbolo do Ying-Yang, as quais não definem a fronteira entre as imagens que formam, é justamente representar a divisão indistinta entre as práticas e os grupos que compõem nossa comunidade. “Divisão indistinta”: veja só a sensibilidade e a ousadia de quem resolveu adotar esse emblema! Não é intrigante?

No entanto, Senhor, mesmo que eu me arrisque a tentar ser Dominador, sei que o lado submisso estará sempre latente, pois sou facilmente dominável por quem realmente tem esse objetivo e vence ou dribla as dificuldades que esse meu “espírito forte” possa impor, embora eu ache no mínimo divertida e até persuasiva sua teoria do Dom passivo, que se manteria dominante mesmo sendo mijado ou “fistado”. É uma teoria provocadora, e tenho grande simpatia por provocações. Um dia tentei contato com um Dom que se dizia passivo, para saber seu ponto de vista a esse respeito, mas ele não quis conversa, apenas respondeu que não pensava sobre o assunto (dizem que quem não pensa é feliz, o Senhor sabia?).

Mas ele ainda me disse que tinha dois escravos ativos e lembrei que o Senhor me disse que havia conhecido alguns subs que sofriam por não serem subservientes, apesar de passivos em algumas práticas da Dominação. Lembro que esse “sofriam” me chamou a atenção, porque acho muito triste que as pessoas sofram apenas por não conseguirem se encontrar.

Eu... espero que eu me encontre. Conversar, escrever... são boas maneiras de me encontrar. Exercita o pensamento. Sabe, reflito sobre o papel do BDSM em mim. Acho que é uma transição, uma fase em que me conhecerei e em que concretizarei certas realidades minhas. Porque o BDSM proporciona isso, faz que tornemos palpáveis, e com a completa ciência, aqueles nossos traços que muitas vezes não conseguimos admitir. O BDSM, como experiência, ajuda-nos a perceber nossos verdadeiros limites e vontades. Sempre busquei um Dominador a cada relação que tive e ainda creio que só o encontrarei numa relação “baunilha”, onde os traços naturais e incontroláveis da personalidade me farão obedecer e o farão comandar sem prévio consentimento. Até lá, a “liturgia” consensual moldará o grito que eu agüento, o tapa que eu suporto ou mesmo (e aí o Senhor estará certo) se eu não tolero mesmo tudo isso e prefiro que o grito e o tapa venham de mim. Porque percebo existir, sim, um tipo de força e violência aqui que, por algum motivo, medo, talvez, eu ainda não deixe emergir.

Essa força e essa violência me incomodam sempre quando me pego contestando imperdoavelmente um Mestre qualquer, ou quando me recuso a continuar apanhando, ou mesmo “dando” (porque, Senhor, nem totalmente passivo eu sou). Estou para me arriscar em outros ares. Encantei-me com um escravo, lindinho, o Senhor precisa ver, com objetivos bem parecidos com os meus. Ele quer um companheiro acima de tudo, e quer um Mestre. Não sabe de minhas inclinações, aliás nem sei como e por que o conheci, mas tem me agradado a sua conversa. Não, eu não o estou enganando, Senhor, apenas me conhecendo. Preciso vê-lo e tê-lo sob minhas ordens para saber o quanto isso me preencherá. Depois, se ambos nos agradarmos, e estivermos à beira de um vínculo mais formal, revelarei a ele que se trata de minha primeira experiência do tipo. Afinal, se tantos Mestres já foram escravos ou se submeteram a alguém para se aprimorarem ou descobrirem, por que eu não posso fazer o mesmo? Mesmo que, no fundo, eu saiba que minhas aventuras por outras correntezas possam ser apenas fruto de uma singela tristeza, de uma forte decepção. É assim quando tento ainda olhar para as mulheres.

Seja lá qual for a minha descoberta, meu papel no BDSM, pelo menos o formal, esse das liturgias, dos pontos de encontro, das comunidades virtuais, será curto provavelmente. Penso, inclusive, que ele já é pequeno demais. Limita-se a algumas poucas reflexões, a alguns escritos e vagas experiências. Devo até colecionar os meus escritos em algum diário, quem sabe mesmo na Internet, para lê-los e relê-los e lembrar de mim, do meu desejo sempre que me bater essa vontade de olhar para dentro do meu prazer e da minha dor. Se alguém lê-los e conseguir qualquer luz através deles, minha pobre presença nesse universo já estará justificada.

E ainda há o amor. Sei que parece piegas falar a respeito, mas é incrível como me tem sido negada a possibilidade, mesmo que ainda limitada ao “plano das idéias”, de unir o BDSM a um tipo de relação um pouco mais formal e íntima. Eu sei que estamos no novo milênio, tempo do individualismo e do egocentrismo, onde, para revolucionar as dores, as relações e mesmo os sentimentos são re-idealizados. Mas o problema maior, percebo, é a dificuldade que algumas pessoas têm de lidar com as próprias sensações. Muitos parecem estar mergulhados numa terrível insegurança e num profundo egoísmo, e não conseguem mais se achar dentro das próprias vontades e das próprias palavras. Minha última experiência, Senhor, que nem considero BDSM tamanha a humanidade que via nela, foi um fracasso. Houve um bloqueio que nem entendi como começou. Fico aqui refletindo sobre meus erros, mas, como amigos costumam me dizer, o quanto de reflexão existe do outro lado? Talvez seja essa a crucial diferença. E por mais que eu busque o amor, não quero usar essa palavra agora, digo apenas que o Senhor percebeu bem quando afirmou que eu tinha por certo Dom um sentimento especial. Eu tenho sim. E o Senhor pode até achar isso bonito, mas quero fora de mim, porque se mostrou inútil e me incomoda. Hoje nossas vidas foram totalmente separadas, por livre e única escolha dEle que, talvez, não tenha querido me compreender ou tenha temido que eu tocasse nEle algo muito protegido. De qualquer forma, por mais que meus erros tenham sido grandes, não creio que Ele esteja livre de culpa do nosso fracasso. Quase nunca Ele se admitia errado, e isso nunca é bom. Pode ser um Mestre, mas há força e sabedoria também na humildade. Agora Ele me ignora e despreza como se tivesse motivos, como se fosse Ele o machucado. Queria tanto que me procurasse, eu já pensava em ceder muitas coisas para cultivá-lO comigo. Ceder o meu tempo, o meu ciúme... Eu passava a estar disposto a qualquer condição, contanto que sentisse novamente seu comando sobre meu corpo. Mas Ele não valorizou o mais íntimo em mim. E agora tenho de agüentar conhecidos e ex-experiências dEle (todas sempre questionáveis, que mancham Sua imagem), tenho de suportar que ele já perambulou por cada espaço que cogito entrar. O que me faz um pouco sujo, não acha? É assim que me sinto: sujo, vulgar, “mais um”. Talvez dizer isso O agrida, caso lesse estas palavras, mas Ele abriu mão de me entender e conversar. Há um pouco de egoísmo aí. A insegurança não me importa, O abraçaria até que ela passasse, mas o egoísmo, que armas tenho contra ele? Sabe, Senhor, disse no início da carta que tenho tendência a achar que o erro sempre está em mim. Talvez seja essa a razão que me mantenha submisso, mas não há jeito: erro. Inclusive na rebeldia. O amor pede cuidado, todos dizem, mas ele também gera feridas, agressões. E eu agrido. Misturam-se em mim todos os lados, o intermédio me ocupa e ataco. Mas por que isso é tão incompreensível? Será que as pessoas nunca se depararam com uma frase de Guimarães Rosa que diz “Eu sei: quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade...”? Ah... devo ter encontrado o que tanto separa o BDSM do que é verdadeiramente humano!

Pronto, Senhor, preciso terminar esta longa carta, cujas palavras jamais admitirei verdadeiras a quem quer que cruze com elas, exceto o seu único destinatário. Já disse coisas demais, já despejei insanidades demais, confissões demais. Minha imagem agora é mais que um grosseiro esboço, faço-me mais nítido e não sei que conseqüências isso terá. Mas talvez não haja o que me preocupe. Às vezes me sinto num pardieiro, onde tudo já deu o que tinha de dar.

Um abraço forte do seu doce monstro,

*****

(h.l.)

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

SSC (uma mini-história)


– Senhor, eu quero amor.

– Eu lhe dou dor... e prazer, quer?

– eu quero amor.


(h.l.)