EUGÉNIE – Receio, Dolmancé, que esta crueldade que preconizais com tanto ardor influencia um pouco vossos prazeres; já constatei o quão duro sois ao gozar; acho que também tenho algumas disposições para tal vício. Para esclarecer minhas idéias a esse respeito, dizei-me, por favor, como vede o objeto que serve aos vossos prazeres?
DOLMANCÉ – Como absolutamente nulo, minha cara. Que ele participe ou não de meus gozos, que sinta ou não contentamento, apatia ou mesmo dor, contanto que eu seja feliz, o resto para mim tanto faz.
EUGÉNIE – Melhor ainda quando ele sofre, não é mesmo?
DOLMANCÉ – Certamente, é muito melhor. Já vos disse, a repercussão, mais ativa em nós, determina de forma mais rápida e enérgica os espíritos animais na direção necessária da volúpia. Abri os serralheiros da África, da Ásia e da Europa meridional; vede se os chefes desses célebres haréns se preocupam muito em dar prazer aos indivíduos que os servem quando sentem tesão. Eles ordenam e são obedecidos; gozam e ninguém ousa respondê-los; quando estão satisfeitos, todos se afastam. Alguns deles puniriam como falta de respeito a audácia de participar de seus prazeres. O rei de Achem manda impiedosamente cortar a cabeça da mulher que ousa se esquecer, em sua presença, a ponto de gozar, e com freqüência ele mesmo a decepa. Este déspota, um dos mais singulares da Ásia, só tem mulheres como guarda; só lhes dá ordens mediante sinais; a morte mais cruel é a punição para aquelas que não conseguem entendê-los e os suplícios são executados sempre por sua própria mão ou diante de seus olhos.
DOLMANCÉ – Como absolutamente nulo, minha cara. Que ele participe ou não de meus gozos, que sinta ou não contentamento, apatia ou mesmo dor, contanto que eu seja feliz, o resto para mim tanto faz.
EUGÉNIE – Melhor ainda quando ele sofre, não é mesmo?
DOLMANCÉ – Certamente, é muito melhor. Já vos disse, a repercussão, mais ativa em nós, determina de forma mais rápida e enérgica os espíritos animais na direção necessária da volúpia. Abri os serralheiros da África, da Ásia e da Europa meridional; vede se os chefes desses célebres haréns se preocupam muito em dar prazer aos indivíduos que os servem quando sentem tesão. Eles ordenam e são obedecidos; gozam e ninguém ousa respondê-los; quando estão satisfeitos, todos se afastam. Alguns deles puniriam como falta de respeito a audácia de participar de seus prazeres. O rei de Achem manda impiedosamente cortar a cabeça da mulher que ousa se esquecer, em sua presença, a ponto de gozar, e com freqüência ele mesmo a decepa. Este déspota, um dos mais singulares da Ásia, só tem mulheres como guarda; só lhes dá ordens mediante sinais; a morte mais cruel é a punição para aquelas que não conseguem entendê-los e os suplícios são executados sempre por sua própria mão ou diante de seus olhos.
Tudo isso, minha cara Eugénie, está absolutamente fundado sobre princípios que vos devolvi. O que se deseja quando se goza? Que todos aqueles que nos rodeiam só se ocupem de nós, só pensem em nós, só cuidem de nós. Se os objetos que nos servem também gozam, ei-los mais ocupados consigo próprios do que conosco, e conseqüentemente nosso prazer será prejudicado. Não há homem que não queira ser déspota quando sente tesão. Por certo seu prazer diminui quando os outros também parecem senti-lo. Levado por um movimento de orgulho muito natural nesse momento, ele quer ser o único no mundo a ser suscetível de experimentar o que sente. A idéia de ver outro gozar como ele coloca-o numa espécie de igualdade que prejudica os atrativos individuais que o despotismo proporciona. É falso, aliás, que haja prazer quando o proporcionamos aos outros; isto seria servi-los, e o homem de pau duro está longe do desejo de ser útil aos outros. Praticando o mal, ao contrário, ele experimenta todos os encantos provados por um indivíduo nervoso que faz uso de suas forças; ele então domina, é tirano. Que diferença para o amor próprio! Não acreditemos que ele se cale neste caso.
O ato de gozar é uma paixão que subordina a si todas as outras, concordo, mas que reúne todas ao mesmo tempo. Esta vontade de dominar, neste momento, é tão forte na natureza que a reconhecemos mesmo entre os animais. Vede se os que estão sob o cativeiro procriam quando estão livres. Os dromedários vão além: só procriam quando estão sós. Tentai surpreendê-los, mostrai que podeis dominá-los, e imediatamente se separam de suas companheiras e fogem. Se não fosse intenção da natureza esta superioridade do homem, ela não teria feito mais fracos do que ele os seres que lhe destina para tais momentos. Esta debilidade a que a natureza condenou as mulheres prova incontestavelmente ser sua intenção que o homem, que então goza mais do que nunca de sua potência, a exerça mediante todas as formas de violência que desejar, incluindo os suplícios. A crise da volúpia seria uma espécie de raiva se a intenção dessa mãe do gênero humano não fosse dar ao coito o mesmo tratamento que a cólera? Que homem bem constituído, enfim, dotado de órgãos vigorosos, não deseja, de um modo ou de outro, molestar o objeto de seu gozo? Sei perfeitamente que uma infinidade de idiotas, que jamais se dão conta de suas sensações, compreenderão mal os sistemas que estabeleço; mas que me importam estes imbecis? Não é para eles que falo. Vis adoradores de mulheres, deixo-os aos pés de suas insolentes Dulcinéias aguardando o suspiro que os fará felizes, e desprezíveis escravos do sexo que deveriam dominar, abandono-os aos míseros encantos de se agrilhoarem enquanto a natureza lhes dá o direito de martirizar os outros. Que estes animais vegetem na baixeza que os avilta: seria em vão tentar aconselhá-los. Mas que não denigram o que não podem compreender, persuadindo-se que aqueles que só querem estabelecer seus princípios em tais matérias conforme os impulsos de uma alma vigorosa e de uma imaginação sem freios, como nós fazemos, senhora, vós e eu, serão os únicos que merecerão ser ouvidos, os únicos feitos para lhes prescreverem leis e lhes dar lições.
(Trecho de “A Filosofia na Alcova”, de Marquês de Sade. Tradução de Contador Borges)
(Trecho de “A Filosofia na Alcova”, de Marquês de Sade. Tradução de Contador Borges)
