sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O abismo

Nu, ele estava nu, diante de um abismo. O seu corpo e a sua alma, cada qual com sensações distintas, ordenavam que ele desse mais um passo, e caísse.

Foi assim que se sentiu naquela tarde ensolarada de domingo. Luz não faltava. A ninguém. O abismo era tudo aquilo que explodia dentro de si, e que não podia controlar. Uma vez aceito o desafio de tocar os limites do seu afeto e do seu desejo, ele não podia voltar atrás. Já estava lá, naquele quarto, com aquele desconhecido amarrado na cama, sem roupa alguma, as pernas separadas, erguidas, e tudo aquilo que lhe diminuía como homem exposto, à espera. Ele olhava bem aquele corpo na cama, e pensava como reagiria ao toque que ganharia. Seu coração já estava acelerado, a sua pele, vermelha, as suas mãos, frias. Era desespero o que sentia, era pavor, e quase um ódio.

Nesse quase é que abriram a porta. Seu Mestre chegara. Pelo menos o homem a quem acostumara chamar de Mestre até aquele momento. Seu Mestre, seu amante, seu amigo, ele entrou no quarto calmamente, não tremia, não suava, até sorria, como se nada o abalasse, como se não tivesse dúvidas nem medo. Tanta serenidade machucava aquele menino, agora um indefeso menino, que tinha aceitado arranjar um corpo novo para o seu amante, cansado da mesmice, da rotina, cruel assassina das relações. Aquele menino havia aceitado conhecer o abismo, mas o seu Mestre era apenas serenidade.

O Senhor e agora Dono daquelas duas vítimas no quarto beijou a testa molhada do seu servil menino e cuidou de observar o desconhecido na cama. Reparou nos nós, na qualidade da corda, na venda que impediria a visão por toda aquela tarde e na mordaça, um anel que mantinha a boca aberta, o suficiente para que coubesse um pênis ereto. Reparou também se o jovem era bonito, a seu gosto, e se estava limpo. O Mestre não suportava sujeira.

Mas tudo ficou um pouco mais sujo, ao menos para o menino escravo que presenteava o seu amante Senhor. O ciúme era uma bobagem, o Mestre lhe dizia; uma bobagem que doía, o menino pensava. Mesmo assim, para o bem da relação, era preciso tentar, pelo menos tentar, ver como seria, ceder às necessidades de seu Mestre, por mais tolas que lhe parecessem, tolas e nocivas. O Mestre inclusive dera permissão ao menino para que conhecesse outros homens (não outros Senhores, claro), mas o menino não precisava daquilo, recusava a liberdade. O que o jovem servo precisava era conceder as brechas que seu Mestre queria, para que o elo entre os dois continuasse. E com todo o sol que invadia aquele quarto, a luz faltou. Talvez o momento em que se fecham os olhos para pular no abismo.

Obedecendo a uma ordem, o menino começou a acariciar o pau do seu Mestre sobre a calça, enquanto ele olhava o terceiro ali amarrado. O escravo ajudava o Senhor a se excitar com aquela imagem. Depois fez mais: participou de cada toque, cada movimento, o menino conduziu o tempo todo o corpo do Mestre ao corpo na cama.

Era só fogo dentro de si. O menino tremia, fraquejava, dilacerava-se a cada gemido de prazer do seu Dono. Ele não entendia tanto êxtase, embora o seu corpo algumas vezes também expusesse alguma excitação. Sim, o menino estava excitado, ao mesmo tempo em que tinha vontade de chorar. O menino sentia raiva do seu corpo, porque gozar a dor que vem de fora, isso o seu Mestre tinha ensinado, mas como gozar a dor de dentro? Uma tempestade de dúvidas lhe invadiu a alma. Um enxame de “por quê?” e “para quê?” lhe picava a pele. Talvez fosse o momento de uma escolha difícil, contraditória ao caminho que escolhera. O prazer ou a dor. Seu limite havia chegado, era preciso escolher.

E ele não escolheu. Agüentou o que ainda havia ali. Foi obrigado a lamber na cara do desconhecido o prazer viscoso do seu Mestre. Foi obrigado a se masturbar enquanto fazia isso e a gozar vendo seu Mestre tocando aquele corpo. Fez. Nem sequer reclamou.

Anoiteceu. O desconhecido havia deixado o quarto há poucas horas, e o menino escravo esperava, sentado no chão, escorado num canto da parede, o Mestre terminar seu banho. De volta, o Senhor agachou-se próximo ao menino, fitava-o, tinha no rosto uma expressão diferente, não era aquele sorriso de prazer. O Mestre estava sério, ponderava e, o menino pensou, parecia trazer dentro de si enfim uma dúvida. O Dono daquele garoto sabia o quanto significava aquele momento, o quanto tanta coisa dependia daquilo que havia acontecido e, tentava perceber, torcia para que percebesse um olhar de afeto, de satisfação naquele escravinho de que tanto gostava. O menino buscava o oposto, buscava um “basta, isso não acontecerá mais”, porque “esse prazer doentio me machuca”. Ninguém encontrou nada e ambos sentiram na espinha o frio torturante da incerteza. Estavam diante de um abismo, nus, e talvez as coisas não tivessem mais o mesmo significado. Mas ainda era preciso decidir se dariam, e qual seria, o próximo passo.

(h.l.)

domingo, 9 de setembro de 2007

Peças quebradas

E era ali que eles estavam. Sentados cada um em uma cadeira, um de frente para o outro, mãos para trás, amarradas, pés amarrados, amordaçados. Mas os olhos livres, e dentro de cada par de pupilas, o outro, o companheiro à sua frente. O Mestre observava atento aqueles dois corpos, as suas duas únicas peças. Tentava encontrar os indícios, a prova do que já era evidente: aquelas duas peças se queriam, estavam apaixonadas. Ele as havia imobilizado justamente para acompanhar o olhar de cada um, olhares que tanto conhecia e que há pouco tempo (quanto mesmo?) eram direcionados apenas a ele, seu Senhor absoluto, dono de suas dores e seus prazeres.

O Mestre não compreendia como duas peças poderiam se querer assim. Quem seria o Senhor delas? Peças precisam de um dono. Será que a presença de um Senhor seria dispensável? Não, isso não era possível – ele pensava –, porque aquelas peças eram de primeira categoria, elas não viviam momentos de fetiche, elas eram o fetiche. Tão difícil encontrar peças como aquelas, principalmente a nº 2, tão submissa, silenciosa, pacata, disponível. O escravo nº 2 era digno até de um 24/7, era próprio para isso, porque não tinha vida, vivia para o seu Dono. E tão bonito. Mas era o escravo nº 1 o seu preferido. Aquele que primeiro tinha encontrado, se dizendo submisso, mas arredio, mal-criado, contestador, esquivo. O nº 1 não tinha a mesma beleza que seu colega de coleira, mas era atraente e tinha uma personalidade (sim, a peça tinha uma personalidade!) que o Mestre chegou a qualificar como “maravilhosa”. E o escravo nº 1 dava ao Mestre um gostinho bom de vitória, por este ter muitas vezes de “envergá-lo”, sempre com sucesso. O Mestre se sentia poderoso, porque tinha dominado um bicho difícil. Não que o n º 2 não lhe desse comparável prazer, mas eram situações bem diferentes. E a escolha de quem se gosta mais... uma das poucas que o Mestre não fez.

Pensando sobre tudo aquilo, e tentando entender aquele diálogo de olhares, que tentavam sem êxito disfarçar seus sentimentos, o Mestre começou a achar que tinha desvendado a razão do problema. Era a peça nº 2 que estava apaixonadinha pela nº 1, pois esta confundia sim muitos escravos, ela tinha a altivez dos Mestres. O escravo nº 1 era atrevido, e bastante inteligente. Talvez estivesse seduzindo o nº 2 para afastá-lo do seu Dono; ele nunca tinha se conformado com a sua não exclusividade.

Ou será que o escravo nº 1 também estava apaixonado? Essa idéia lhe incendiou as entranhas. O Mestre se levantou diante daqueles imprestáveis, cheio de fúria, e se pôs de frente à peça nº 1, a olhou nos olhos. Tentou encontrar aquele bicho que sempre dominava. Mas aquele bicho não estava ali – era claro, o Mestre via –, aquele bicho não estava mais ali!

Por um segundo, e pela primeira vez, o Mestre abaixou a cabeça e tentou olhar para dentro de si, em busca do porquê e do futuro. Ergueu a cabeça novamente e, tomado pelo ciúme (sentimento que, claro, não admitia, e lhe dava outros nomes, muitas vezes incoerentes), decidiu acabar com aquele atrevimento que nascia entre aqueles dois vermes. Tirou os dois de suas cadeiras e os levou até um canto da parede onde, graças a um suporte construído por ele próprio, os escravos ficavam presos pelos punhos incomodamente erguidos. Aquelas peças tinham alguns limites à dor, mas o Mestre estava decidido. Com seu chicote de estimação, começou a açoitar aquelas duas coisinhas, com uma força que elas certamente estranhariam, e entenderiam. O Mestre batia, batia, batia, porque um desrespeito daqueles era inadmissível, uma chacota ao D/s, a Ele! O Mestre batia, batia, batia, porque não havia permitido que nada entre aquelas peças tomasse vida, ele batia e batia e batia porque aqueles gritos que ouvia agora, abafado pelas mordaças, não eram a safe word, eram mais um desrespeito às regras. O Mestre batia, batia e batia porque o que nasce sempre morre com a dor e aqueles olhos de medo do nº 2 e aqueles olhos de raiva do nº 1 ainda o desrespeitavam. Batia e batia e batia porque era o jeito, porque as peças, rachadas, tinham pedido por aquilo, porque aquele incômodo dentro de si precisava sair: aquela dúvida, aquele receio.

Esvaiam-se as forças do Mestre, ele cansava, e agora só via cacos no chão. Pedaços de algo que ele perdeu, não sabe como nem por quê. O Mestre batia e batia e batia, agora certo de que nada daquilo, nada, nada, nada, de nada adiantaria.

(h.l.)

sábado, 1 de setembro de 2007

A Força

Na cama de um dos muitos motéis em que haviam feito amor, Sabina brincava com o braço de Franz:

– É incrível como você é musculoso.

Esses elogios lhe agradavam. Levantou-se da cama e suspendeu com o pé, lentamente, uma pesada cadeira de carvalho. Ao mesmo tempo dizia a Sabina:

– Você não tem nada a temer, posso defendê-la em qualquer circunstância. Em outros tempos fui campeão de judô.

Conseguiu levantar o braço na vertical sem largar a cadeira, e Sabina disse:

– É bom saber que você é tão forte!

No entanto, em seu íntimo, acrescentou isto: Franz é forte, mas sua força é voltada unicamente para o exterior. Com as pessoas com quem vive, com aqueles que ama, é fraco. A fraqueza de Franz se chama bondade. Franz jamais daria ordens a Sabina. Nunca mandaria – como Tomas fizera em outros tempos – que ela ficasse inteiramente nua em cima de um espelho e se pusesse a andar de um lado para o outro. Não que lhe falte sensualidade, mas ele não tem força para comandar. Existem coisas que só podem ser conseguidas com violência. O amor físico é impensável sem violência.

Sabina via Franz andar pelo quarto carregando bem alto a cadeira. A cena parecia-lhe ridícula e a enchia de uma estranha tristeza.

Franz largou a cadeira e sentou-se, com o rosto voltado para Sabina.

– Não é que eu não goste de ser forte – disse –, mas de que me servem estes músculos em Genebra? Carrego-os como um enfeite. São as plumas do pavão. Nunca quebrei a cara de ninguém.

Sabina continuava com suas reflexões melancólicas. E se ela tivesse um homem que lhe desse ordens? Que a dominasse? Quanto tempo ela o suportaria? Nem cinco minutos! Donde concluiu que nenhum homem lhe convinha. Nem forte, nem fraco.

– Por que de vez em quando você não usa sua força contra mim? – disse ela.

– Porque amar é renunciar à força – respondeu Franz docemente.

Sabina compreendeu duas coisas: primeiro, que essa frase era bela e verdadeira. Segundo, que, com essa frase, Franz acabara de excluir-se de sua vida erótica.

(Trecho de A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera. Tradução: Teresa B. Carvalho da Fonseca)