segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Masoquista (um texto sem fim)

Jogou-se luz sobre a cidade:

Viu-se um negro, homem, pedir a um outro homem, mas branco, careca, que lhe batesse, espancasse, chamasse-o de crioulo de merda: esta era a sua viagem, cheiro de infância.

Viu-se um moço amargurado pelo ciúme imaginar o namorado transando com outros homens. Sendo bem carinhoso com eles, beijando-os, acariciando-os, sentindo muito prazer. O moço era todo angústia, todo dor, corroia-se inteiro, e masturbava-se por fim.

Viu-se o poeta, quando menino humilhado e pisoteado por um pé enorme, dizer na tv que busca por esse pé todos os dias, em cada homem que conhece, para o qual abre as pernas. Nenhum prazer será maior do que o do dia em que sentir novamente esse pé na sua cara.

Também o rapaz popular da escola dizer-se rei do pedaço até encontrar aquele que lhe fizesse lamber as solas de suas botas. Engolir a arrogância, experiência orgástica, e de rei agora era cadela.

Também o marido prisioneiro do seu próprio machismo ir ao estádio de futebol vestindo por baixo da bermuda uma calcinha bem apertada. Fez isso sem ordem de ninguém.

O rapazote, “passivo até a morte”, lutar para que seus namorados ativaços consentissem ser penetrados. Depois disso desinteressava-se, não importando o quanto aqueles homens lhe alegravam ou mesmo o quanto penetrá-los lhe satisfazia. Da mesma maneira, a mulher com seus machos: seus dedos insaciáveis custavam a macular-lhes a virilidade. Uma vez conseguissem, fosse qual fosse seu prazer, pedia aos homens que lhe esquecessem.

A dona de casa suportar a bebida, as pancadas, as outras do marido, preparando-lhe o jantar.

A mocinha enfim encontrar o homem que lhe valorizasse, que lhe desse flores e beijos sempre que pudesse. Ela o recusou, achou-o feio, baixo, magro, chato, quando na verdade seu grande defeito era... fazê-la feliz.

Palavras rabiscadas num papel: “Chorei porque perdi a minha dor e não estava acostumado a viver sem ela”*.

(...)



(...)



(...)







(h.l.)


(* frase de Anais Nin)

3 comentários:

Rapaz Espartano disse...

Tá...
Ok, eu sabia que vc tinha talento, mas... poxa, que texto amis incrível...
É seu mesmo ou de algum famoso autor?
Poxa, ultra-fodástico!
Parabéns!!!

hardlove disse...

Meu mesmo. Quando vem com (h.l.) ao final é porque é meu, senão eu indico de quem é.

E muito obrigado pelo elogio! Abração.

Gí disse...

“Chorei porque perdi a minha dor e não estava acostumado a viver sem ela”
P q será que a primeira rima do amor é dor¿
Sei lá rs sei que prefiro assim, andar por cima dos sentimentos, seus textos me tocam e fazem refletir, mas talvez ficar nessa de buscar o pote de ouro no final do arco-íris acabe nos impedindo de aproveitar o sol... Ah, é um comentário mais pra mim pra mim mesma rsrs Beijão