E eles se encontraram. Era noite, era uma calçada suja, eram dois corpos errando na vida. Souberam seus nomes, seus gostos, suas idades, souberam que um era o oposto do outro. Exploraram por dias e meses o que cada um deixava ser explorado, o que cada um permitia de si, era um namoro, uma amizade, um laço, um aprendizado. Um queria encontrar no toque que recebia a força, o outro queria encontrar no corpo que tocava a fragilidade. E eles se encontraram. Como raramente se encontram os corpos, as mentes. As almas. Foi um encontrar-se por querer, por deixar. Foi o desejo de ser enxergado, tocado, apesar de. Foi um pedido de me encontre. Aqueles dois eram um achado. Porque queriam ser assim para o outro, porque queriam ser assim para si mesmos, porque queriam ver crescer o que tanto cultivavam aqui dentro, porque sonhavam os sonhos do outro, refaziam os caminhos, os desenhos da pele, violavam o outro, os machucados, as dores, os cheiros, as sensações todas, os olhos, porque queriam estar dentro dos olhos do outro, porque um queria ser o peso da mão que o outro desejava sobre seu corpo. Eram completos, juntos, unidos até naquilo que não sabiam, que escondiam, que não esperavam. Eram estrelas, brilhantes noturnos, sempre à espera do desaparecer da luz, ávidos a mergulhar um na escuridão do outro. E um dia mergulharam. Conheceram o doce amargo sensível triste feliz outro lado. Viram-se pela primeira vez. Afundaram-se, confundiram-se, transfiguraram-se. Onde havia força, revelou-se uma fraqueza bonita; onde se exibia a fragilidade, transgrediu o avassalador poder do domínio. Cada toque agora, cada olhar, era o avesso do que havia sido. Souberam-se novamente um o oposto do outro, e perceberam com medo uma desconhecida manhã que surgia. Porque a madrugada findava, abandonavam-se à sorte aqueles seres acostumados a errar Pela Noite. E perdidos na violenta nudez que o outro apresentava, disseram assustados, mas disseram: eu quero. E eles se encontraram: sentiram o sabor do Sol nascendo.
(h.l.)

1 comentários:
Esse me lembrou um texto da Clarisse, só que menos otimista, vou procurar e te mandar pelo orkut...
Posso fazer propaganda do seu blog, gosto muito dos seus textos e queria compartilhar...
Bom FDS
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