domingo, 30 de dezembro de 2007

Conto de fadas, parte I

O teu amor é uma mentira
que a minha vaidade quer.
(Cazuza)


Mãos dadas, eles estavam de mãos dadas! Trocavam carícias e olhares, e se contemplavam. O outro era bonito, não fazia feio diante de mim, e parecia ativaço, como eu. Era até mais alto, talvez até mais forte. Mas, não, não era mais homem.

Não temos um pacto de fidelidade, eu acho nojenta a lealdade do corpo, acho uma mentira, então tanto faz ele aí se esfregando com esse mauricinho. Eu meto nos dois se for preciso! O que eu não admito é essa falta de respeito, de consideração, o que eu não tolero é meu escravo se expondo em plena luz do dia com outro macho, assim na minha frente, no mesmo ambiente que eu, tem gente aqui que sabe que ele é meu escravo. Esse puto precisa apanhar muito ainda.

Quando o encontrei já era noite, fui logo perguntando: “E aí, deu hoje?”. “Dei, sim, Senhor”, me respondeu sem vergonha. Dei-lhe logo um tapa na cara, mandei tirar a roupa e ficar de quatro em cima da cama. Aquele cu tava mesmo usado... Tirei o meu cinto e bati sem dó. Ele fazia força pra não gemer, o desgraçado. Depois sentei na poltrona, botei meu pau pra fora e ordenei: “Senta!”. Ele sabia que não era “sentar com cuidado”, quando eu digo pra sentar é pra sentar mesmo, como se estivesse morto de cansado e buscasse ávido uma cadeira. Deu até dó do bichinho, eu sei que o cu dele fica meio machucado depois que trepa, mas não havia outro jeito, ele tinha de aprender que não era pra se exibir por aí, na minha frente. Onde já se viu! E ainda mais daquela forma, tão carinhosa!!!

“Tá de namoradinho, é?”, eu quis debochar. “Sim, Senhor, é meu namorado, sim”, me respondeu tímido. Eu não entendi porra nenhuma. Namorado? Aquele puto era todo sentimental, dizia que eu era Mestre dele porque gostava de mim, e agora aí, com namorado! Não agüentei:

– Faz tempo?
– Duas semanas, Senhor?
– Onde o conheceu?
– Ele é da faculdade, Senhor.
– Ele é ativo?
– Sim, Senhor.
– Você gosta dele?
– Sim, Senhor.
– E eu, o que sou?
– Meu Mestre, Senhor.

Eu não acreditei. Aquilo foi falso, havia algo errado. Como que um puto todo romântico agora tinha um Mestre e um namorado? Nossa relação era aberta, mas éramos fixo um do outro, não cabia um “namorado”. Um ficante, vá lá, mas namorado! Aquele puto estava me desobedecendo! Ordenei que ficasse de quatro novamente e dei mais umas cintadas. O puto agora gemia alto. Mandei calar a boca.

Ele era um puto inteligente, e bem gostosinho. Um dos melhores que já tive. Eu tinha lá os meus casos, fixos também, mas esse puto, ele era especial. Filosofava bonito sobre o BDSM, e chupava que era uma beleza. E me obedecia como ninguém. Mas ele nunca mentia, eu até me comovia com a transparência dele. Era um puto sincero, verdadeiro, daí que inventar um namoradinho não era coisa dele. Ele não me enganaria, nem o rapazote. O puto não chamaria alguém de namorado à toa.

Minhas cintadas continuavam, eu queria, eu precisava que continuassem. Ele não pronunciava a safe word, era incrível. O puto vencia seus limites e me veio à mente que aquela era a última vez. Então eu parei... e ordenei que se vestisse. Depois de vestido, mandei que fosse até o banheiro e sentasse no vaso, de boca aberta. Eu me vesti e fui até lá, enfiei meu pau naquela boca e mijei. Ele engoliu tudo, sem reclamar. Ele sempre engolia alguma coisa, mas nunca tudo.

– Aquele fulaninho te dá mijo também, seu verme?
– Não, Senhor.
– E você o ama?
– Eu sou aberto ao amor, Senhor.
– E consegue chamar um homem de amor e outro de Mestre?
– Não, eu não consigo, Senhor.
– E nós, seu puto, como ficamos?
– Como quer que fiquemos, Senhor?

Era um puto atrevido, aquele. Atrevido e malcriado. Quando respondia uma pergunta minha com outra pergunta era porque, se eu deixasse, lá vinha chumbo grosso. Mas aquele puto tinha muitas liberdades comigo. O importante é que tivesse consciência de que eu era o seu Mestre. E tivesse consciência do que eu poderia oferecer. Já havíamos conversado muito sobre isso, mas mesmo assim sempre nos deparávamos num impasse. Ele era um garotinho que acreditava em contos de fadas, e isso não cabia mais em mim. Eu não ia responder aquela pergunta, ele sabia a resposta.

– Sabe que eu gosto de você, não sabe?
– Eu também gosto muito do Senhor.
– Bom ouvir isso.

Ele me sorriu. Um sorriso triste, sem jeito, mas um sorriso. Seus olhos estavam decepcionados e me doía ver essa decepção. Quer dizer, me doía em parte, porque também me agradava perceber que eu ainda era importante pra ele.

Escovou os dentes, arrumou a mochila, me beijou e saiu. Antes que fechasse a porta, eu perguntei “Você ainda é meu, não é?”. Ele, com aquele mesmo sorriso, balançou a cabeça e disse baixo “Sou, sim”. E desapareceu. Na cama alguns vestígios de sua existência, na minha pele ainda uma prova do que ele era, mas, no quarto, apenas a sua ausência. E comigo, em mim, a crença de que nos veremos de novo.

(h.l.)


5 comentários:

Manyukeh disse...

Feliz Ano novo pra ti!!
Beijos
Many

manyukeh disse...

Oi Hardlove!
Obrigada por me visitar!!
Te respondendo se frequento o luxuria, a resposta é não, apesar de eu estar bem curiosa... porque? vc frequenta? gosta?

Adorei o conto de fadas!!!
Continue escrevendo!
Beijos
Many

A Insubmissa disse...

olá. Adorando o blog...principalmente os contos, mui belos mesmo! Visitante de carteirinha daqui pra frente!

rose.:.SR disse...

Muito bacana esse conto h.l. e a epígrafe então? Perfeita!

Bjo bjo bjo desta sua leitora submissa_insone :))

rose.:.SR disse...

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Ah esqueci de colocar meu link do wordpress na postagem anterior, pq o povo clica na fotinho e cai no blogspot e o blog do blogspot é proibido para menores de 120 anos e visitantes curiosos rsss

www.pensamentosubmisso.wordpress.com

Já te li hoje, já li a many, o blog do dumuz tá desatualizado ... agora vou ler mais por aí, tchau!

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