E era ali que eles estavam. Sentados cada um em uma cadeira, um de frente para o outro, mãos para trás, amarradas, pés amarrados, amordaçados. Mas os olhos livres, e dentro de cada par de pupilas, o outro, o companheiro à sua frente. O Mestre observava atento aqueles dois corpos, as suas duas únicas peças. Tentava encontrar os indícios, a prova do que já era evidente: aquelas duas peças se queriam, estavam apaixonadas. Ele as havia imobilizado justamente para acompanhar o olhar de cada um, olhares que tanto conhecia e que há pouco tempo (quanto mesmo?) eram direcionados apenas a ele, seu Senhor absoluto, dono de suas dores e seus prazeres.
O Mestre não compreendia como duas peças poderiam se querer assim. Quem seria o Senhor delas? Peças precisam de um dono. Será que a presença de um Senhor seria dispensável? Não, isso não era possível – ele pensava –, porque aquelas peças eram de primeira categoria, elas não viviam momentos de fetiche, elas eram o fetiche. Tão difícil encontrar peças como aquelas, principalmente a nº 2, tão submissa, silenciosa, pacata, disponível. O escravo nº 2 era digno até de um 24/7, era próprio para isso, porque não tinha vida, vivia para o seu Dono. E tão bonito. Mas era o escravo nº 1 o seu preferido. Aquele que primeiro tinha encontrado, se dizendo submisso, mas arredio, mal-criado, contestador, esquivo. O nº 1 não tinha a mesma beleza que seu colega de coleira, mas era atraente e tinha uma personalidade (sim, a peça tinha uma personalidade!) que o Mestre chegou a qualificar como “maravilhosa”. E o escravo nº 1 dava ao Mestre um gostinho bom de vitória, por este ter muitas vezes de “envergá-lo”, sempre com sucesso. O Mestre se sentia poderoso, porque tinha dominado um bicho difícil. Não que o n º 2 não lhe desse comparável prazer, mas eram situações bem diferentes. E a escolha de quem se gosta mais... uma das poucas que o Mestre não fez.
Pensando sobre tudo aquilo, e tentando entender aquele diálogo de olhares, que tentavam sem êxito disfarçar seus sentimentos, o Mestre começou a achar que tinha desvendado a razão do problema. Era a peça nº 2 que estava apaixonadinha pela nº 1, pois esta confundia sim muitos escravos, ela tinha a altivez dos Mestres. O escravo nº 1 era atrevido, e bastante inteligente. Talvez estivesse seduzindo o nº 2 para afastá-lo do seu Dono; ele nunca tinha se conformado com a sua não exclusividade.
Ou será que o escravo nº 1 também estava apaixonado? Essa idéia lhe incendiou as entranhas. O Mestre se levantou diante daqueles imprestáveis, cheio de fúria, e se pôs de frente à peça nº 1, a olhou nos olhos. Tentou encontrar aquele bicho que sempre dominava. Mas aquele bicho não estava ali – era claro, o Mestre via –, aquele bicho não estava mais ali!
Por um segundo, e pela primeira vez, o Mestre abaixou a cabeça e tentou olhar para dentro de si, em busca do porquê e do futuro. Ergueu a cabeça novamente e, tomado pelo ciúme (sentimento que, claro, não admitia, e lhe dava outros nomes, muitas vezes incoerentes), decidiu acabar com aquele atrevimento que nascia entre aqueles dois vermes. Tirou os dois de suas cadeiras e os levou até um canto da parede onde, graças a um suporte construído por ele próprio, os escravos ficavam presos pelos punhos incomodamente erguidos. Aquelas peças tinham alguns limites à dor, mas o Mestre estava decidido. Com seu chicote de estimação, começou a açoitar aquelas duas coisinhas, com uma força que elas certamente estranhariam, e entenderiam. O Mestre batia, batia, batia, porque um desrespeito daqueles era inadmissível, uma chacota ao D/s, a Ele! O Mestre batia, batia, batia, porque não havia permitido que nada entre aquelas peças tomasse vida, ele batia e batia e batia porque aqueles gritos que ouvia agora, abafado pelas mordaças, não eram a safe word, eram mais um desrespeito às regras. O Mestre batia, batia e batia porque o que nasce sempre morre com a dor e aqueles olhos de medo do nº 2 e aqueles olhos de raiva do nº 1 ainda o desrespeitavam. Batia e batia e batia porque era o jeito, porque as peças, rachadas, tinham pedido por aquilo, porque aquele incômodo dentro de si precisava sair: aquela dúvida, aquele receio.
Esvaiam-se as forças do Mestre, ele cansava, e agora só via cacos no chão. Pedaços de algo que ele perdeu, não sabe como nem por quê. O Mestre batia e batia e batia, agora certo de que nada daquilo, nada, nada, nada, de nada adiantaria.
O Mestre não compreendia como duas peças poderiam se querer assim. Quem seria o Senhor delas? Peças precisam de um dono. Será que a presença de um Senhor seria dispensável? Não, isso não era possível – ele pensava –, porque aquelas peças eram de primeira categoria, elas não viviam momentos de fetiche, elas eram o fetiche. Tão difícil encontrar peças como aquelas, principalmente a nº 2, tão submissa, silenciosa, pacata, disponível. O escravo nº 2 era digno até de um 24/7, era próprio para isso, porque não tinha vida, vivia para o seu Dono. E tão bonito. Mas era o escravo nº 1 o seu preferido. Aquele que primeiro tinha encontrado, se dizendo submisso, mas arredio, mal-criado, contestador, esquivo. O nº 1 não tinha a mesma beleza que seu colega de coleira, mas era atraente e tinha uma personalidade (sim, a peça tinha uma personalidade!) que o Mestre chegou a qualificar como “maravilhosa”. E o escravo nº 1 dava ao Mestre um gostinho bom de vitória, por este ter muitas vezes de “envergá-lo”, sempre com sucesso. O Mestre se sentia poderoso, porque tinha dominado um bicho difícil. Não que o n º 2 não lhe desse comparável prazer, mas eram situações bem diferentes. E a escolha de quem se gosta mais... uma das poucas que o Mestre não fez.
Pensando sobre tudo aquilo, e tentando entender aquele diálogo de olhares, que tentavam sem êxito disfarçar seus sentimentos, o Mestre começou a achar que tinha desvendado a razão do problema. Era a peça nº 2 que estava apaixonadinha pela nº 1, pois esta confundia sim muitos escravos, ela tinha a altivez dos Mestres. O escravo nº 1 era atrevido, e bastante inteligente. Talvez estivesse seduzindo o nº 2 para afastá-lo do seu Dono; ele nunca tinha se conformado com a sua não exclusividade.
Ou será que o escravo nº 1 também estava apaixonado? Essa idéia lhe incendiou as entranhas. O Mestre se levantou diante daqueles imprestáveis, cheio de fúria, e se pôs de frente à peça nº 1, a olhou nos olhos. Tentou encontrar aquele bicho que sempre dominava. Mas aquele bicho não estava ali – era claro, o Mestre via –, aquele bicho não estava mais ali!
Por um segundo, e pela primeira vez, o Mestre abaixou a cabeça e tentou olhar para dentro de si, em busca do porquê e do futuro. Ergueu a cabeça novamente e, tomado pelo ciúme (sentimento que, claro, não admitia, e lhe dava outros nomes, muitas vezes incoerentes), decidiu acabar com aquele atrevimento que nascia entre aqueles dois vermes. Tirou os dois de suas cadeiras e os levou até um canto da parede onde, graças a um suporte construído por ele próprio, os escravos ficavam presos pelos punhos incomodamente erguidos. Aquelas peças tinham alguns limites à dor, mas o Mestre estava decidido. Com seu chicote de estimação, começou a açoitar aquelas duas coisinhas, com uma força que elas certamente estranhariam, e entenderiam. O Mestre batia, batia, batia, porque um desrespeito daqueles era inadmissível, uma chacota ao D/s, a Ele! O Mestre batia, batia, batia, porque não havia permitido que nada entre aquelas peças tomasse vida, ele batia e batia e batia porque aqueles gritos que ouvia agora, abafado pelas mordaças, não eram a safe word, eram mais um desrespeito às regras. O Mestre batia, batia e batia porque o que nasce sempre morre com a dor e aqueles olhos de medo do nº 2 e aqueles olhos de raiva do nº 1 ainda o desrespeitavam. Batia e batia e batia porque era o jeito, porque as peças, rachadas, tinham pedido por aquilo, porque aquele incômodo dentro de si precisava sair: aquela dúvida, aquele receio.
Esvaiam-se as forças do Mestre, ele cansava, e agora só via cacos no chão. Pedaços de algo que ele perdeu, não sabe como nem por quê. O Mestre batia e batia e batia, agora certo de que nada daquilo, nada, nada, nada, de nada adiantaria.
(h.l.)

2 comentários:
Seus textos tem uma sensibilidade rara pra perceber a dualidade da relação entre um Dominador e um submisso. Sempre percebi esse algo mais em você, talvez por isso esteja sendo tão difícil você encontrar de imediato o que busca. E é por isso também que te desejo tanto...
teu Mestre
André Dogão
Obrigado pelo comentário!
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