Nu, ele estava nu, diante de um abismo. O seu corpo e a sua alma, cada qual com sensações distintas, ordenavam que ele desse mais um passo, e caísse.
Foi assim que se sentiu naquela tarde ensolarada de domingo. Luz não faltava. A ninguém. O abismo era tudo aquilo que explodia dentro de si, e que não podia controlar. Uma vez aceito o desafio de tocar os limites do seu afeto e do seu desejo, ele não podia voltar atrás. Já estava lá, naquele quarto, com aquele desconhecido amarrado na cama, sem roupa alguma, as pernas separadas, erguidas, e tudo aquilo que lhe diminuía como homem exposto, à espera. Ele olhava bem aquele corpo na cama, e pensava como reagiria ao toque que ganharia. Seu coração já estava acelerado, a sua pele, vermelha, as suas mãos, frias. Era desespero o que sentia, era pavor, e quase um ódio.
Nesse quase é que abriram a porta. Seu Mestre chegara. Pelo menos o homem a quem acostumara chamar de Mestre até aquele momento. Seu Mestre, seu amante, seu amigo, ele entrou no quarto calmamente, não tremia, não suava, até sorria, como se nada o abalasse, como se não tivesse dúvidas nem medo. Tanta serenidade machucava aquele menino, agora um indefeso menino, que tinha aceitado arranjar um corpo novo para o seu amante, cansado da mesmice, da rotina, cruel assassina das relações. Aquele menino havia aceitado conhecer o abismo, mas o seu Mestre era apenas serenidade.
O Senhor e agora Dono daquelas duas vítimas no quarto beijou a testa molhada do seu servil menino e cuidou de observar o desconhecido na cama. Reparou nos nós, na qualidade da corda, na venda que impediria a visão por toda aquela tarde e na mordaça, um anel que mantinha a boca aberta, o suficiente para que coubesse um pênis ereto. Reparou também se o jovem era bonito, a seu gosto, e se estava limpo. O Mestre não suportava sujeira.
Mas tudo ficou um pouco mais sujo, ao menos para o menino escravo que presenteava o seu amante Senhor. O ciúme era uma bobagem, o Mestre lhe dizia; uma bobagem que doía, o menino pensava. Mesmo assim, para o bem da relação, era preciso tentar, pelo menos tentar, ver como seria, ceder às necessidades de seu Mestre, por mais tolas que lhe parecessem, tolas e nocivas. O Mestre inclusive dera permissão ao menino para que conhecesse outros homens (não outros Senhores, claro), mas o menino não precisava daquilo, recusava a liberdade. O que o jovem servo precisava era conceder as brechas que seu Mestre queria, para que o elo entre os dois continuasse. E com todo o sol que invadia aquele quarto, a luz faltou. Talvez o momento em que se fecham os olhos para pular no abismo.
Obedecendo a uma ordem, o menino começou a acariciar o pau do seu Mestre sobre a calça, enquanto ele olhava o terceiro ali amarrado. O escravo ajudava o Senhor a se excitar com aquela imagem. Depois fez mais: participou de cada toque, cada movimento, o menino conduziu o tempo todo o corpo do Mestre ao corpo na cama.
Era só fogo dentro de si. O menino tremia, fraquejava, dilacerava-se a cada gemido de prazer do seu Dono. Ele não entendia tanto êxtase, embora o seu corpo algumas vezes também expusesse alguma excitação. Sim, o menino estava excitado, ao mesmo tempo em que tinha vontade de chorar. O menino sentia raiva do seu corpo, porque gozar a dor que vem de fora, isso o seu Mestre tinha ensinado, mas como gozar a dor de dentro? Uma tempestade de dúvidas lhe invadiu a alma. Um enxame de “por quê?” e “para quê?” lhe picava a pele. Talvez fosse o momento de uma escolha difícil, contraditória ao caminho que escolhera. O prazer ou a dor. Seu limite havia chegado, era preciso escolher.
E ele não escolheu. Agüentou o que ainda havia ali. Foi obrigado a lamber na cara do desconhecido o prazer viscoso do seu Mestre. Foi obrigado a se masturbar enquanto fazia isso e a gozar vendo seu Mestre tocando aquele corpo. Fez. Nem sequer reclamou.
Anoiteceu. O desconhecido havia deixado o quarto há poucas horas, e o menino escravo esperava, sentado no chão, escorado num canto da parede, o Mestre terminar seu banho. De volta, o Senhor agachou-se próximo ao menino, fitava-o, tinha no rosto uma expressão diferente, não era aquele sorriso de prazer. O Mestre estava sério, ponderava e, o menino pensou, parecia trazer dentro de si enfim uma dúvida. O Dono daquele garoto sabia o quanto significava aquele momento, o quanto tanta coisa dependia daquilo que havia acontecido e, tentava perceber, torcia para que percebesse um olhar de afeto, de satisfação naquele escravinho de que tanto gostava. O menino buscava o oposto, buscava um “basta, isso não acontecerá mais”, porque “esse prazer doentio me machuca”. Ninguém encontrou nada e ambos sentiram na espinha o frio torturante da incerteza. Estavam diante de um abismo, nus, e talvez as coisas não tivessem mais o mesmo significado. Mas ainda era preciso decidir se dariam, e qual seria, o próximo passo.
Foi assim que se sentiu naquela tarde ensolarada de domingo. Luz não faltava. A ninguém. O abismo era tudo aquilo que explodia dentro de si, e que não podia controlar. Uma vez aceito o desafio de tocar os limites do seu afeto e do seu desejo, ele não podia voltar atrás. Já estava lá, naquele quarto, com aquele desconhecido amarrado na cama, sem roupa alguma, as pernas separadas, erguidas, e tudo aquilo que lhe diminuía como homem exposto, à espera. Ele olhava bem aquele corpo na cama, e pensava como reagiria ao toque que ganharia. Seu coração já estava acelerado, a sua pele, vermelha, as suas mãos, frias. Era desespero o que sentia, era pavor, e quase um ódio.
Nesse quase é que abriram a porta. Seu Mestre chegara. Pelo menos o homem a quem acostumara chamar de Mestre até aquele momento. Seu Mestre, seu amante, seu amigo, ele entrou no quarto calmamente, não tremia, não suava, até sorria, como se nada o abalasse, como se não tivesse dúvidas nem medo. Tanta serenidade machucava aquele menino, agora um indefeso menino, que tinha aceitado arranjar um corpo novo para o seu amante, cansado da mesmice, da rotina, cruel assassina das relações. Aquele menino havia aceitado conhecer o abismo, mas o seu Mestre era apenas serenidade.
O Senhor e agora Dono daquelas duas vítimas no quarto beijou a testa molhada do seu servil menino e cuidou de observar o desconhecido na cama. Reparou nos nós, na qualidade da corda, na venda que impediria a visão por toda aquela tarde e na mordaça, um anel que mantinha a boca aberta, o suficiente para que coubesse um pênis ereto. Reparou também se o jovem era bonito, a seu gosto, e se estava limpo. O Mestre não suportava sujeira.
Mas tudo ficou um pouco mais sujo, ao menos para o menino escravo que presenteava o seu amante Senhor. O ciúme era uma bobagem, o Mestre lhe dizia; uma bobagem que doía, o menino pensava. Mesmo assim, para o bem da relação, era preciso tentar, pelo menos tentar, ver como seria, ceder às necessidades de seu Mestre, por mais tolas que lhe parecessem, tolas e nocivas. O Mestre inclusive dera permissão ao menino para que conhecesse outros homens (não outros Senhores, claro), mas o menino não precisava daquilo, recusava a liberdade. O que o jovem servo precisava era conceder as brechas que seu Mestre queria, para que o elo entre os dois continuasse. E com todo o sol que invadia aquele quarto, a luz faltou. Talvez o momento em que se fecham os olhos para pular no abismo.
Obedecendo a uma ordem, o menino começou a acariciar o pau do seu Mestre sobre a calça, enquanto ele olhava o terceiro ali amarrado. O escravo ajudava o Senhor a se excitar com aquela imagem. Depois fez mais: participou de cada toque, cada movimento, o menino conduziu o tempo todo o corpo do Mestre ao corpo na cama.
Era só fogo dentro de si. O menino tremia, fraquejava, dilacerava-se a cada gemido de prazer do seu Dono. Ele não entendia tanto êxtase, embora o seu corpo algumas vezes também expusesse alguma excitação. Sim, o menino estava excitado, ao mesmo tempo em que tinha vontade de chorar. O menino sentia raiva do seu corpo, porque gozar a dor que vem de fora, isso o seu Mestre tinha ensinado, mas como gozar a dor de dentro? Uma tempestade de dúvidas lhe invadiu a alma. Um enxame de “por quê?” e “para quê?” lhe picava a pele. Talvez fosse o momento de uma escolha difícil, contraditória ao caminho que escolhera. O prazer ou a dor. Seu limite havia chegado, era preciso escolher.
E ele não escolheu. Agüentou o que ainda havia ali. Foi obrigado a lamber na cara do desconhecido o prazer viscoso do seu Mestre. Foi obrigado a se masturbar enquanto fazia isso e a gozar vendo seu Mestre tocando aquele corpo. Fez. Nem sequer reclamou.
Anoiteceu. O desconhecido havia deixado o quarto há poucas horas, e o menino escravo esperava, sentado no chão, escorado num canto da parede, o Mestre terminar seu banho. De volta, o Senhor agachou-se próximo ao menino, fitava-o, tinha no rosto uma expressão diferente, não era aquele sorriso de prazer. O Mestre estava sério, ponderava e, o menino pensou, parecia trazer dentro de si enfim uma dúvida. O Dono daquele garoto sabia o quanto significava aquele momento, o quanto tanta coisa dependia daquilo que havia acontecido e, tentava perceber, torcia para que percebesse um olhar de afeto, de satisfação naquele escravinho de que tanto gostava. O menino buscava o oposto, buscava um “basta, isso não acontecerá mais”, porque “esse prazer doentio me machuca”. Ninguém encontrou nada e ambos sentiram na espinha o frio torturante da incerteza. Estavam diante de um abismo, nus, e talvez as coisas não tivessem mais o mesmo significado. Mas ainda era preciso decidir se dariam, e qual seria, o próximo passo.
(h.l.)

3 comentários:
É um belo texto.
Esvaziar as relações de humanidade, travesti-las de qualquer outra coisa artificial e decadente fada ao fracasso, realmente dá nisso, um abismo que draga, que consome, que suga e que tira a vida.
É preciso ser ser humano de verdade pra não cair nesse tipo de armadilha, é preciso maturidade, é preciso hombridade, coisas que, infelizmente, pouquíssimos possuem.
Grande abraço!
Obrigada por suas visitas, mesmo que silenciosas.
Muito belo seu texto.
rose.
www.pensamentosubmisso.wordpress.com
Cheguei aqui através da Rose!
Vc como ela abre buracos na alma, libera dores que nunca haviamos percebido.
Faz desejar uma dor, um dilacerar descabido pelo puro prazer de entregar-se.
Vcs fazem que qualquer dor seja pequena diante imensidão de nossa capacidade de entrega.
Não há limite para o humilhar, o sofrer, só uma busca desenfreada para viver a totalidade da entrega.
Eu fico cá pensando...talvez.. só talvez... não será a entrega maior que o dominio???
Talvez... só talvez sub não devessem pensar tanto....
Lindo seus textos....
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