sábado, 1 de setembro de 2007

A Força

Na cama de um dos muitos motéis em que haviam feito amor, Sabina brincava com o braço de Franz:

– É incrível como você é musculoso.

Esses elogios lhe agradavam. Levantou-se da cama e suspendeu com o pé, lentamente, uma pesada cadeira de carvalho. Ao mesmo tempo dizia a Sabina:

– Você não tem nada a temer, posso defendê-la em qualquer circunstância. Em outros tempos fui campeão de judô.

Conseguiu levantar o braço na vertical sem largar a cadeira, e Sabina disse:

– É bom saber que você é tão forte!

No entanto, em seu íntimo, acrescentou isto: Franz é forte, mas sua força é voltada unicamente para o exterior. Com as pessoas com quem vive, com aqueles que ama, é fraco. A fraqueza de Franz se chama bondade. Franz jamais daria ordens a Sabina. Nunca mandaria – como Tomas fizera em outros tempos – que ela ficasse inteiramente nua em cima de um espelho e se pusesse a andar de um lado para o outro. Não que lhe falte sensualidade, mas ele não tem força para comandar. Existem coisas que só podem ser conseguidas com violência. O amor físico é impensável sem violência.

Sabina via Franz andar pelo quarto carregando bem alto a cadeira. A cena parecia-lhe ridícula e a enchia de uma estranha tristeza.

Franz largou a cadeira e sentou-se, com o rosto voltado para Sabina.

– Não é que eu não goste de ser forte – disse –, mas de que me servem estes músculos em Genebra? Carrego-os como um enfeite. São as plumas do pavão. Nunca quebrei a cara de ninguém.

Sabina continuava com suas reflexões melancólicas. E se ela tivesse um homem que lhe desse ordens? Que a dominasse? Quanto tempo ela o suportaria? Nem cinco minutos! Donde concluiu que nenhum homem lhe convinha. Nem forte, nem fraco.

– Por que de vez em quando você não usa sua força contra mim? – disse ela.

– Porque amar é renunciar à força – respondeu Franz docemente.

Sabina compreendeu duas coisas: primeiro, que essa frase era bela e verdadeira. Segundo, que, com essa frase, Franz acabara de excluir-se de sua vida erótica.

(Trecho de A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera. Tradução: Teresa B. Carvalho da Fonseca)

1 comentários:

Rapaz Espartano disse...

Belo texto!
Mas não sei se concordo muito com o final não, viu?

Sobre os "mestres", acho que o problema é vivermos no Brasil, país onde nada é sério, onde as pessoas não se agremiam nem levam as coisas de um modo inteligente e verdadeiramente pleno.

Grande abraço!!!