quarta-feira, 3 de junho de 2009

porque sou todo prazer e dor



É uma vontade, e um pouco de necessidade. Minha vida mudou um tanto e quero que mude mais ainda, para melhor. Meu ideal é não ser uma máscara, um vulto, um pseudônimo. Tudo o que sou é apenas eu, e assim que gostaria que fosse, independente da lamúria, do confronto, da polêmica, independente da cor que tenha a minha palavra.

Escrever é uma necessidade. Por mais que eu demore, tenha preguiça, me falte motivo, assunto, talento, um dia eu escrevo de novo. Por isso tenho tanta dificuldade de deletar um blog. Ainda não vou deletar este aqui, mas talvez ele não tenha mais propósito. O BDSM tem lados que me atraem, mas não me traduzem por inteiro. Talvez eu seja uma farsa, ou talvez todos os meus poréns, as minhas ressalvas, os meus conflitos, tudo me torne mais próximo do BDSM do que eu mesmo imagine. Entretanto, embora não tenha dito tudo aqui, este lugar já não me basta. Acho que posso continuar em outro canto, menor, mas legítimo. Continuar com o meu nome, livre para a toda a diversidade que me compõe.

O BDSM estará lá, de algum modo, mas jamais como aqui. Quem gosta deste recanto pelo possível valor que ele tenha, para além do fetiche, talvez continue a gostar do outro, que já existe há algum tempo e pra onde já migraram alguns escritos daqui.

Para todos que me queiram para além do fetiche, convido-os a O Meu Depois. E obrigado por tudo.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Litania



Nós nunca nos realizamos.

Somos dois abismos – um poço fitando o céu.




(Fernando Pessoa)

sábado, 24 de janeiro de 2009

Classificados (um minipoema)



Sou um escravo livre que procura


um Dono para servir-me.



[h.l.]

domingo, 21 de dezembro de 2008

Tragédia Natural



Imaginei uma conversa.
Desperdiçávamos verdades tolas
certos de nós.

Indagava-me os preconceitos
o sexismo
e a inteligência.

Declarei-me aos homens:
os héteros são meu principal objeto
de desejo.

Os gays...
são lindos também...

mas os héteros,
estes têm aquele masculino
tradicional, intocável.

Trazem nos olhos a vaidade ingênua
de um Dominador nato:

Sejam eles medíocres
fracos
burros
submissos,
na cama são eles quem comem.

É uma certeza que lhes massageia
o ego
e dão-lhes sorrisos
tão humanos e tão bonitos.

É a poesia própria de um homem
com uma mulher.

A mim,
só um suspiro.

Sou homem também
e por mais que eu dê
jamais serei dominado.


[h.l.]

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

eu



fraco e feio
intermédio entre teu asco
e teu gozo

chão pros teus pés sujos

papel pros teus ideais
bobos e rasos

penico pras tuas ternuras

uma prostituta, meiga
e tímida,
com muito amor no coração.

[h.l.]

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Deborah Blando



"Você esqueceu um detalhe
Não finja que não percebeu
O acaso falou o seu nome
Pensando no meu...

Não olhe pra mim
Com essa cara
Você ainda não entendeu
Eu nasci com o direito
A ser dona de tudo que é seu...

Eu tenho em minhas mãos
Esse contrato assinado
O sangue derramado em papel
A chave e a escritura
De um palácio no inferno
Por um quarto e sala no céu...

Você quer vender sua alma?
Você quer vender, quanto é?
Você é dos meus, da minha laia
Então faça seu preço
E depois pague pra ver qual é...

Você já conhece essa lenda
Não finja que você não leu
Você anda cruzando demais
Seu caminho no meu
Não vejo motivo pra espanto
Há tempos que a lei é assim
Você só vai ganhar esse jogo
Se perder pra mim...

Eu tenho em minhas mãos
Esse contrato assinado
O sangue derramado em papel
A chave e a escritura
De um palácio no inferno
Por um quarto e sala no céu...

Você quer vender sua alma?
Você quer vender, quanto quer?
Você é dos meus, da minha laia
Então faça seu preço
E depois pague pra ver qual é
Qual é?

("Contrato Assinado", de Dudu Falcão, gravada por Deborah Blando)

[Enquanto minha inspiração pra este espaço não volta, vejam que interessante esta canção. Deborah é um curioso talento desperdiçado; passou de quase diva pop internacional a uma cantora pop quase mediana, mas ainda não chega a ser intragável. A parte em negrito destaca o que mais gostei na letra. Creio que é uma lição pra todos os que ainda encontram obstáculos... – h.l.]

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

W.

É porque ele tem para mim, num canto da boca
ou num ângulo das pálpebras,
o sinal sagrado dos monstros...
(Jean Genet)


É porque tem o peito estufado, muito elevado mesmo, não sei se por excessivos exercícios ou por drogas. É porque parece falso, de plástico, grande demais. Braços grandes também, não sei medir, algumas tantas dezenas de centímetros de circunferência. Medidas que ele dá, porque gosta de se exibir. É porque ele adora ser forte e respeita apenas os fortes, os que buscam e agüentam a dor. É porque a dor e a força tornam os homens monstros. É porque quer que todos os homens sejam monstros. É porque busca e gosta de ser um monstro.

É porque tem fogo desenhado nas suas pernas, e ostenta a si mesmo nas costas. É porque suas mãos são ásperas e todo o seu corpo, muito pesado. É porque se refere a si mesmo como um animal: um elefante, um cachorro, um urso enorme, peludo, com músculos rasgando-lhe as roupas, mas uma imperfeita e máscula barriga a denunciar a comida, a bebida, a vida selvagem. É porque é um animal que bate e que briga e se mostra nojento e arrogante e tão bobo e tão perspicaz.

É porque ele é um escroto.

É porque ele não sorri à toa e ri feito criança tola. É porque ele dança, conta vantagem, filosofa, condena a mediocridade e a preguiça. É porque sofre na vida. É porque “a felicidade é um homem que não usa camisa”. É porque ele não pertence à massa e não come e não comerá feno. É porque ele sabe conversar. É porque ele dá valor ao que eu digo, e eu digo muito pouco. É porque às vezes ele me conhece. É porque se lembra de mim. É porque ele roubou da minha boca uma confirmação da sua beleza.

É porque eu gosto de alimentar a sua vaidade, dizendo que ele é mesmo tudo o que diz. É porque ele é um rock star. É porque eu sei que ele gosta que eu o admire. É porque ele gosta de provocar o medo e gosta de fazer rir. É porque ele é um lutador, a violência faz brilhar os seus olhos. É porque ele é um pensador, a inteligência lhe doma o coração. É porque tem no olhar o tino de um homem adulto. É porque ele não ignora a minha presença, sempre me nota e procura o que me dizer.

É porque vou vê-lo muito pouco agora.

É porque ele eu amaria como a um dono, um protetor, um carrasco. É porque dele eu apanharia. É porque quero que me bata. É porque eu me submeteria totalmente à sua maldade e ao sofrimento que me causasse. É porque eu me entregaria de bom grado ao céu ou ao inferno que garantisse a sua presença em minha vida. É porque ele não é um desencontro, é uma fatalidade. Minha mais atual e Cortez e voluptuosa tragédia.

(dedicado a alguém que nunca lerá esse texto)

(h.l.)